
Se você costuma comprar espumantes brasileiros, talvez já tenha percebido uma mudança discreta nas prateleiras: garrafas de 660 ml começam a ganhar espaço em uma categoria tradicionalmente associada aos 750 ml.
Não é apenas uma mudança de embalagem. É um sinal de que o mercado de vinhos também está respondendo a uma transformação que já conhecemos muito bem em outras categorias de consumo.
Chocolate com menos gramas.
Pacote de biscoito com menos unidades.
Barra de cereal menor.
Sorvete com menos conteúdo.
É a chamada reduflação: quando a quantidade de um produto é reduzida, muitas vezes como alternativa a um aumento maior no preço final.
Agora, esse movimento começa a aparecer também no vinho.
660 ml em vez de 750 ml: faz diferença?
Faz.
Uma garrafa de 660 ml tem aproximadamente 12% menos conteúdo do que uma garrafa convencional de 750 ml.
E já encontramos exemplos no mercado brasileiro, como o Garibaldi Primícias Brut 660 ml e o Saint Germain Brut 660 ml, entre outros espumantes nacionais comercializados nesse formato.
A questão não é simplesmente dizer que uma garrafa menor é ruim.
Pelo contrário: existem argumentos bastante interessantes para esse formato.
Uma garrafa de 660 ml pode representar um menor desembolso na compra, ser adequada para um consumo entre duas pessoas e até reduzir o desperdício em ocasiões nas quais uma garrafa inteira de 750 ml pode ser demais.
O ponto é outro:
quanto o consumidor está pagando por aquilo que efetivamente está levando para casa?
O preço da garrafa não conta toda a história
É aqui que entra uma conta simples, mas que raramente fazemos no supermercado:
preço por litro.
Imagine duas garrafas:
- 750 ml por R$ 30
- 660 ml por R$ 27
À primeira vista, a segunda parece mais barata.
Mas, quando transformamos os dois preços em valor por litro, a história muda.
A garrafa de 750 ml custa R$ 40 por litro.
A de 660 ml custa aproximadamente R$ 40,91 por litro.Ou seja: o consumidor paga menos pela garrafa, mas não necessariamente paga menos pelo vinho.Esse tipo de comparação tende a se tornar cada vez mais importante à medida que o consumidor fica mais atento ao preço e as empresas precisam encontrar maneiras de equilibrar custos, margem e preço de entrada.
O que isso revela sobre o mercado de vinhos?
Mais do que uma mudança de tamanho, a garrafa de 660 ml pode ser um reflexo de uma transformação maior no comportamento de consumo.O consumidor brasileiro está mais atento ao desembolso, mas isso não significa necessariamente que deixou de buscar qualidade.Talvez ele esteja apenas procurando novas formas de consumir.Uma garrafa menor pode facilitar a compra por impulso, atender melhor a ocasiões de menor consumo e tornar determinado produto mais acessível na prateleira.E isso abre uma discussão interessante para o setor:o futuro do vinho pode estar menos relacionado ao tamanho tradicional da garrafa e mais relacionado à ocasião em que ela será consumida.
Durante décadas, os 750 ml foram praticamente uma convenção no mundo do vinho.
Ver outros formatos ganhando espaço mostra que até convenções aparentemente consolidadas podem mudar quando o comportamento do consumidor muda.
E talvez essa seja a parte mais interessante dessa história.
A redução do volume não precisa ser necessariamente um problema.
O problema começa quando o consumidor não percebe a mudança e compara apenas o preço da garrafa.
Por isso, da próxima vez que encontrar um espumante de 660 ml na prateleira, não olhe apenas para o preço.
Olhe para o volume.
E faça a conta:
quanto estou realmente pagando por litro?
Radar Debora 🔎🍷
Minha leitura: a chegada dos 660 ml aos espumantes nacionais é mais um sinal de que o mercado de vinhos está se aproximando das lógicas do varejo de consumo de massa.
Não significa necessariamente que o vinho esteja ficando pior ou que toda garrafa menor seja uma estratégia de reduflação.
Mas significa que embalagem, preço, volume e comportamento de consumo estão cada vez mais conectados.
E, para quem compra vinho, entender essa conta é tão importante quanto saber escolher a uva.
Porque beber melhor também é saber pelo que você está pagando.
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